Bebidas sem álcool: o segmento que mais cresce no setor
O consumo de álcool está caindo no mundo e no Brasil, mas a vontade de brindar continua. Quem ganha com isso são as cervejas sem álcool, os vinhos desalcoolizados e uma nova geração de drinks e destilados "zero". Nesta edição, vamos ver os números, o que muda no processo e o que diz a legislação.
O que os números mostram
No Brasil, a cerveja sem álcool passou de 2,5% para 3,9% do volume total de cerveja consumido entre 2024 e 2026, segundo a Neogrid, em um período em que o mercado de cerveja como um todo encolheu.[1] A Euromonitor projeta cerca de 885 milhões de litros de cerveja sem álcool no país em 2026, sete vezes o volume de 2019.[2]
No mundo, o movimento é parecido. A IWSR estima que o volume de bebidas sem álcool cresceu cerca de 9% em 2025, enquanto o volume total de bebidas alcoólicas caiu pelo terceiro ano seguido.[3]
Os motivos se repetem nas pesquisas: busca por bem-estar, moderação sem abrir mão do ritual social, e produtos que melhoraram muito de sabor nos últimos anos.
Não é só cerveja
- Cerveja sem álcool: a categoria mais madura, hoje presente em praticamente todos os portfólios grandes e em cada vez mais cervejarias artesanais.
- Vinho desalcoolizado e espumante zero: crescem em ocasiões de celebração.
- Destilados e aperitivos "zero": bases sem álcool para coquetelaria, com aromas de zimbro, ervas e especiarias.
- Drinks prontos sem álcool: versões prontas para beber de coquetéis clássicos.
- Fermentados como a kombucha: exigem controle do álcool residual ao longo da vida de prateleira.
Como se faz uma bebida sem álcool
Existem dois caminhos principais: evitar que o álcool se forme ou retirá-lo depois.[4]
- Fermentação limitada: uso de leveduras que não fermentam a maltose ou interrupção da fermentação. O resultado tende a ter mais corpo e dulçor residual, e o desafio é evitar o sabor de mosto.[5]
- Desalcoolização: a bebida é produzida normalmente e o álcool é retirado por destilação a vácuo, em temperatura mais baixa, ou por membranas, como a osmose reversa.[4][5] A perda de aromas junto com o álcool é o ponto mais sensível.
Em qualquer rota, há um ponto que não pode ser esquecido: o álcool protege a bebida contra contaminação. Sem ele, a estabilidade microbiológica depende de pasteurização ou de outra barreira, e esse cuidado precisa estar no processo desde o início.[4]
Os desafios de formulação
- Corpo e sensação na boca: o álcool contribui para o corpo e o aquecimento. Sem ele, a bebida pode parecer aguada.
- Aroma: ésteres e compostos voláteis se perdem na desalcoolização e precisam ser preservados ou repostos.
- Doçura e calorias: compensar o álcool com açúcar resolve o sabor, mas aumenta calorias e pode levar à rotulagem nutricional frontal.
- Vida de prateleira: sem a barreira do álcool, o risco de refermentação e de contaminação é maior.
O que diz a legislação
O Decreto nº 12.709/2025, que regulamenta a Lei nº 8.918/1994, classifica como não alcoólica a bebida com graduação alcoólica menor que 0,5% em volume, a 20 °C, e como alcoólica a bebida a partir de 0,5%.[6] O mesmo decreto prevê que a bebida alcoólica pode ser desalcoolizada pelo processo definido em ato complementar do Ministério da Agricultura e Pecuária.[6]
Na prática, três pontos pedem atenção:
- Denominação: nomes como gin, rum ou vinho são definidos por padrões de identidade. Um produto sem álcool não pode simplesmente usar esses nomes, e a denominação precisa ser construída com cuidado.
- Expressões de rótulo: termos como "sem álcool", "zero" e "0,0%" já foram discutidos na Justiça. A forma de comunicar o teor alcoólico precisa ser revisada junto com o rótulo.
- Controle do teor: o limite de 0,5% vale durante toda a vida de prateleira, o que exige controle de processo e análise.
O que observar antes de lançar
- Qual rota de processo a fábrica comporta: fermentação limitada ou desalcoolização.
- Como garantir a estabilidade microbiológica sem o álcool.
- Qual é a denominação de venda correta para o produto.
- Como o teor alcoólico vai aparecer no rótulo.
- Qual é o perfil sensorial-alvo e como compensar corpo e aroma.
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Referências
- Giro News. Cerveja sem álcool amplia espaço no consumo brasileiro, aponta Neogrid, 2026. gironews.com
- Monitor Mercantil. Consumo de cerveja sem álcool cresceu sete vezes no país entre 2019 e 2026 (dados Euromonitor). monitormercantil.com.br
- Drinks Intel. A major reset: beverage alcohol volumes fall again in 2025 (dados IWSR). drinks-intel.com
- Brewers Association. Brewing non-alcohol beer, The New Brewer, 2023. the-new-brewer.com
- VLB Berlin / ASBC. Non-alcoholic beer production: overview. asbcnet.org
- Decreto nº 12.709/2025, art. 11 (classificação das bebidas pelo teor alcoólico). legjur.com